segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

MINHAS TROVOADAS


Milhares de pessoas se desesperam ao perder tudo por causa das chuvas. Outras, sofrem por tabela, imaginando o quanto sofreriam se perdessem o que acumulou durante vários anos com enorme sacrifício. Esse o clima que predomina em todos os lares no horário chamado nobre, quando a família se reúne e faz uma espécie de balanço de vida.

O que se passa na cabeça de cada um só se pode imaginar. Quem perde móveis, eletrodomésticos, roupas e demais bens materiais vai à loucura. Aceitam constrangidos a solidariedade e tentam se recompor.

Mal comparando, se as enchentes batessem à minha porta não encontrariam nada além de objetos corriqueiros, como os móveis de uso comum, de pouco valor. Durante 60 anos tudo o que juntei foram mágoas. Algumas vezes pisei fundo no acelerador tentando voar. Era tão ruim de pontaria que não conseguia acertar sequer o portão de minha própria casa.

Gostaria que as chuvas levassem as remotas lembranças da linha do trem que atravessava a cidade e o desfile das meninas de azul e branco que assistia da janela.

Anos e anos de trabalho com registro em carteira serviram para assegurar minha sobrevivência, mas não para salvar a minha vida. Não foram as chuvas de verão que me destruíram. Fui eu mesmo, com minhas próprias trovoadas.

 

SP 10/02/2025

segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

RISCO CALCULADO

 

 

Amanhã estarei embarcando de São Paulo para Recife mais uma vez para rever parentes e amigos. Já fui tantas vezes que já não sinto emoção. Piloto minha vida como se pilotasse um Boeing, ou seja, furando as nuvens e suportando as turbulências.

Graças às bengalas, entro antes de todo mundo e ocupo as primeiras cadeiras; na hora de sair, só depois que todos se foram. Haja paciência, que tenho pra dar e vender. Afinal, ao prestar o serviço militar, na Base Aérea do Recife, voei em todos os tipos de avião, que avançavam sobre o mar de Piedade.

O maior suspense era quando o piloto desligava um dos motores para testar. Em seguida, repetia o teste com os outros.

Mal comparando, quando comecei a vida eu tinha quatro motores e sobrevoava até o Atlântico. Na infância, atravessa o rio Ipojuca a nado, nos trechos mais largos, em Gravatá. Agora, mal atravesso a rua, com duas bengalas ou com a ajuda de um ombro amigo.

Assim, voltar a Pernambuco é um risco e um prazer incalculável. Seja o que Deus quiser.

terça-feira, 15 de outubro de 2024

FALTA DE ENERGIA ELÉTRICA ATINGE ATÉ RONNIE VON

 

Quando iniciei no jornalismo notícia era um fato incomum, que chamasse a atenção por um motivo especial. A norma era informar sem isenção, deixando ao leitor o direito de pensar o que quiser. Agora tudo é notícia, qualquer coisa. Quem protestava era o povo, reclamando das más condições das calçadas, da conta de luz, da falta d’água, enquanto os menos pobres se queixavam dos buracos das ruas ou das estradas, que danificavam seus veículos.

Hoje tudo é notícia e até moradores do Morumby, bairro nobre de São Paulo, abrem a boca contra tudo e contra todos. Nem precisa esperar Datena. Qualquer pessoa bota a cara no celular e destila seu ódio contra tudo e contra todos. O cenário pode ser qualquer um, desde a sala de sua casa até os baixos de um viaduto. A internet conseguiu o que nem Marx nem Lenin jamais sonharam: direitos iguais para todos.

Daí a estranheza ao ver a indignação de Ronnie Von. Morando numa mansão de não sei quantos metros quadrados, com piscina, aquário, quintal, galinheiro, etc.

Somelier assumido, se mostra revoltado pela falta de energia elétrica que afeta a temperatura amena de sua farta coleção de vinhos importados. Como saciar dignamente eventuais visitantes? Só comprando um gerador de energia elétrica!

Um absurdo, diz ele, numa postura que foge à habitual finesse. Não combina. Ele que fez sua carreira baseada em nobreza, desce ao ponto de se dizer uma pessoa do povo, sofrendo as consequências da falta de energia elétrica! Como os tempos mudam!

 

terça-feira, 8 de outubro de 2024

DESPERTADOR


O samba-canção "Despertador" foi composto por mim por volta de 1955, quando fazia serenatas em Caruaru, acompanhado por romero de Figueiredo. Na verdade, era ele que cantava e eu acompanhava ao violão. Este é, pois, um resgate daquela época. A letra é a seguinte:


DESPERTADOR

Resta-me um despertador
que ela me deu
Marcou horas de ventura
hoje marca os prantos meus.
Não posso me conformar
se tão longe dela estou
Quantas horas de ventura
marcou meu despertador

Eu quero sofrer calado,
mas não posso
A saudade no meu peito
me deixa remorso

Porém agora,
aumentando a minha dor
ouço o bater apressado
deste meu despertar (bis).

BIG BAND DA SANTA TOCA NO MUSEU DA CASA BRASILEIRA

A Big Band da Santa se apresenta no próximo domingo às 11 horas no Museu

da Casa Brasileira, comemorando dez anos de sua criação.

Na oportunidade, lançará seu primeiro CD, que inclui peças escritas exclusivamente para o

grupo. Entre os compositores, destacam-se, além, de Tiné, arranjos para

músicas de Toninho Horta, Chiquinha Gonzaga, bem como peças de Gilberto

Assis, Leonardo Muniz e Eduardo Puperi.

A banda é formada por alunos e ex-alunos da Faculdade Santa Marcelina, e

músicos convidados. Desde sua criação tem como regente o maestro Paulo

Tiné, um dos professores daquela instituição, que também está lançando um disco

independente, do Paulo Tiné Quarteto, onde atua como violonista e

guitarrista.

A Big Band da Santa é uma das integrantes do Movimento Elefantes, que

reúne 10 bandas. Trata-se de iniciativa destinada a buscar espaço num mercado

sabidamente dominado por repertórios essencialmente comerciais.

Os encontros musicais do Museu da Casa Brasileira já se transformaram numa

tradição aos domingos, reunindo um público aberto a todas as tendências. A

partir de setembro, o projeto Música no Museu tem Curadoria de Arrigo

Barnabé.

OS 70 ANOS DE RONNIE VON


Ronnie Von faz 70 anos e ganha, merecidamente, excelente reportagem de Júlio Maria no Caderno 2 do Estadão. Decepcionado com a carreira de cantor, ele se transformou em bom apresentador, conquistando principalmente o público feminino, que costuma aplaudir sua elegância e sua beleza física - mais do que sua voz.
Realmente, seu programa na TV Gazeta tem certo bom gosto, embora nem tudo seja de bom gosto. Na entrevista, Ronnie condena o jabá – tendência que condiciona o sucesso à compra de “espaços” na mídia para alcançar o sucesso.  Sem nenhuma contrapartida mostra em seu programa alguns cantores sem a menor expressão, que valem mais pela amizade ou pelas ligações familiares do que pelo eventual talento.
Quando o conheci, vindo de Niterói para aventurar-se no promissor mercado paulistano, Ronnie já era casado com Aretuza e se instalou num apartamento da avenida Santo Amaro. 
Nas primeiras entrevistas impunha uma condição: não contar nada sobre seu estado civil. Na época, década de 60, era comum tentar iludir as fãs com uma solteirice, o que transformava os astros em candidatos naturais a um romance, ou marido, sei lá. Assim, nenhum cantor, não apenas Ronnie Von, dizia se era casado.
Numa certa reportagem, quando ele atingiu o auge do sucesso com “Meu bem”, a revista Intervalo, que circulava às quintas-feiras, decidiu de última hora dedicar-lhe a capa e pediu-me a elaboração de um texto às pressas, considerando que eu já fizera algumas entrevistas com ele e conhecia melhor do que ninguém sua trajetória de iniciante. Ronnie se apresentava todos os domingos no programa Jovem Guarda, comandado por Roberto Carlos na TV Record. E eu estava lá.
 Perguntei ao chefe de reportagem Gilberto Di Pierro se poderia escrever o que quisesse e ele disse sim. Foi quando contei que Ronnie era casado. No dia seguinte, lá estava ele na redação da Marginal do Tietê, com empresário e advogado, protestando contra minha indiscrição. Após a devida acareação, na sala do diretor da revista, Odilo Licetti, deixei a sala convencido de que estaria demitido. Qual o quê. O diretor conseguiu de alguma forma minimizar a questão. Mesmo porque não havia nenhuma mentira.
O programa de Ronnie Von na TV Gazeta caracteriza-se por prestigiar pessoas e eventos de fino trato. Embora nem tudo o seja de fato, como sugiro no início deste comentário. Diante do festival de horrores da programação geral das TVs, chega a ser recomendável. Hoje, já não seria tão implacável quanto o era ingenuamente ao assinar coluna sobre televisão no jornal A Gazeta, com o sobrenome de Zé Flávio.


quinta-feira, 24 de maio de 2018


FLÁVIO TINÉ LULA DA SILVA

Tenho pensado muito em alternativas. Preciso de algo que substitua o noticiário, modifique a rotina, traga novas tarefas para ocupar o tempo que se perde ouvindo cachorro latir, telefone tocar e a secretária do lar reclamando da falta de açúcar, café ou banana.
Não adianta dar dinheiro para suprir tais necessidades, porque outras queixas hão de surgir. Pode não faltar gás, mas quebra-se um copo, a vassoura não presta mais, ou lá vem aquele vizinho perguntar se tem jornal velho para as necessidades do cachorro dele. Sou dos poucos que ainda compram jornal de papel, e ele sabe disso.
Uma das vantagens do ócio é descobrir na televisão documentários sobre a vida e a obra de Paco de Lucia. O pai era violonista, daí sua paixão pelo flamenco. Meu pai também tocava violino na igreja e nem por isso virei músico. Apenas arranho algumas notas ao violão.   
Quero apenas acordar de madrugada ouvindo Silvio Caldas. Sei que é difícil cantar como ele, tocar como Baden Powell, compor como Vinicius. Mas é fácil curtir. Às vezes passo a madrugada ouvindo música.
Outro dia, um médico sugeriu que parasse de sonhar. Chega de Gisele Bündchen, Bruna Marquezine e musas que tais. Daí, me apaixonei pela pianista russa Olga Scheps (vide YouTube).
Já que não sei escrever como Osman Lins nem cantar como Mônica Salmaso, contento-me com a imagem das mulheres bem-sucedidas do Facebook ou com as companheiras da hidroginástica.
Só não me peçam para acrescentar Lula no nome. Sou apenas Flávio Tiné, e olhe lá...